domingo, 31 de julho de 2011

Beleza e Disciplina

Há alguns anos atrás quando assisti ao filme Memórias de uma Gueixa mal sabia eu que estaria encontrando um dos objetos de fascínio que jamais havia pensado em encontrar. Foi a partir desse momento que comecei a enxergar os filmes de outra maneira, sabendo apreciar o lado mais técnico-artístico das produções, pois conceitos como Fotografia e Direção de Arte eram difíceis de serem compreendidos por um leigo como eu no assunto. O filme foi o começo, e, agora, depois de eu ter lido o livro, posso afirmar que há muito mais na beleza oriental do que os olhos ocidentais são capazes de enxergar.

O filme contava uma história dramática que se passava no período da segunda grande guerra que o mundo viveu, mas até aí nada demais, pois histórias assim são produzidas a todo momento. O que mais me encantou nessa produção em especial foi o cuidado com que a arte da produção foi feita, cada detalhe foi levado em consideração, construindo, por fim, um cenário perfeito para um enredo que busca no suporte visual o meio perfeito para mostrar muito mais do que somente diálogos seriam capazes de transmitir. Não é à toa que o filme foi indicado – e premiado- em todas as categorias relativas à arte do principal prêmio do ramo cinematográfico, o Oscar.

Tomando somente o filme como referência fica difícil perceber as ocidentalizações e transgressões que a história sofreu para que pudesse ser adaptada aos cinemas; já se é feita a comparação com base no filme e no livro que o deu origem, é possível criarmos uma consciência desses traços que tiverem de ser alterados absorvendo as imagens para ilustrar de maneira mais sólida as passagens do texto. Arthur Golden, o autor de Memórias de uma Gueixa, é um grande estudioso da literatura e arte, especialmente da japonesa, e com as colaborações certas ele pôde recriar perfeitamente o contexto no qual a história se passava, mostrando a trajetória da pequena Chiyo e todas as reviravoltas que sua vida impôs.

Quando falo que Golden recriou perfeitamente o cenário me refiro às confirmações que tive em relação aos pré-conceitos que tinha para com as tradições japonesas e o modo como sua sociedade funciona. A rigidez das tradições, o modo de se portar e de se comunicar ajudam a construir a origem da disciplina pela qual esse povo é conhecido, aliando esforço e dedicação ao desejo de conseguir algum objetivo em especial. O autor faz uso até de como as pessoas falavam e escreviam para contar a história, tendo sabido que a narração é feita por uma velha gueixa descrevendo suas memórias desde o momento que foi vendida quando criança; comparações muito incomuns – quando levado em conta o estilo atual de literatura – permeiam toda a obra, obrigando o leitor a entrar naquele mundo de uma maneira ou de outra.

Uma combinação de sonoridade, beleza e cultura japonesa fazem desse filme e desse livro marcos no meu entendimento de cinema e literatura; quem tem gosto por esse tipo de assunto, se interessa por história ou simplesmente quer uma literatura que foge dos padrões que percebi até agora, aconselho Memórias de uma gueixa, que, apesar de ser uma leitura bem densa, faz valer a pena, mergulhando por completo num mundo que não existe mais, onde as gueixas eram quase lendas vivas diante de um caos de proporções mundiais.


R. Lorenzi

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