quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Mutantes, e com orgulho!


            O começo de tudo. É assim que X-Men First Class se lança sobre todos os outros filmes que completam a franquia baseada em HQs tão famosa e repercutida no mundo dos quadrinhos. Pra quem já era fã dos filmes em que todo o grupo já estava montado e o enredo tratava de algum conflito específico com (quase) toda certeza vai gostar ainda mais dessa última obra.
Jovens Magneto e Xavier lutando lado a lado
 Ver os tão queridos –e poderosos personagens de uma maneira mais humana e menos fantástica faz o diferencial em relação às abordagens das histórias os envolvendo anteriormente. A não ser por alguns detalhes da caracterização dos vilões, o tratamento estético e artístico dos X-Men não prima pelo diferenciado, mas sim por características que os inserem mais ainda no contexto da época, tudo isso aliado ao cenário. Conflitos psicológicos, aceitação, raiva, angústia e vingança são mostrados com intensidade, trazendo à tona a personalidade de cada um e sobrepondo-a ao caráter mutante, ainda que intrínseco a ele. 
Um ritmo extremamente bem balanceado faz o filme não ser cansativo; viradas nas horas certas e conduzidas com clareza (quase que totalmente, porque alguns diálogos militares deixam o espectador confuso por não se situar direito no contexto histórico) e visibilidade. Sem efeitos exagerados e com destruição na medida certa, a aventura se destaca em relação à ação, ficando bem mais fácil se envolver com a história e sentir o complemento disso visual e sonoramente.
É história de heróis e batalhas, então não vale à pena assistir com expectativas de realidade e grande dramaticidade. É válido pela diversão aos olhos e pra lembrar que fantasia ainda vale muito na indústria filmográfica, seja pelo lucro ou pela satisfação que os fãs têm em ver na tela o que por tanto tempo esteve só na imaginação.

R. Lorenzi

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Paris como você nunca viu


               Meia-noite em Paris foi um filme celebrado por quem acompanha o trabalho do diretor Woody Allen, e tanto tempo depois do lançamento oficial eu decidi ir ao cinema pra ver . Premissas boas era o que não faltava: Owen Wilson (de “Marley e eu”) no papel principal, Allen na direção e Paris como cenário; apesar de tudo isso, o que a sinopse prometia parecia ser algo difícil de ser manejado com imagens sem soberba ou exagero desconstrutivo. Personagens incomuns e tiradas bem interessantes completam o imaginário que a história pretendia instigar.

Gil e o casal Fitzgerald
          Num tom agradável de comédia, Gil, um roteirista que foi passar alguns dias na França com sua noiva e a família dela, começa a se apaixonar por Paris e todo o seu encanto, mas o que mais lhe intriga é como aquela cidade inspirou os escritores, pintores e artistas na década de 20. Entre discussões com a sua mulher e caminhadas a noite pelas ruas da cidade, ele acaba entrando numa espécie de mundo paralelo onde o tempo não passou e toda Paris ainda vive nos anos 20. Ele pega carona com alguns dos nomes que, mais tarde, viriam a ficar famosos pelo mundo inteiro como Hemingway, Dali, Man Ray e outros. Um romance com a musa inspiradora de pintores como Picasso passa a acrescentar mais complexidade à trama toda, deixando uma reflexão sobre a realidade no desfecho.
               Fácil de acreditar ou não, o fato de eu nunca ter assistido a um filme de Allen me surpreendeu também. Talvez por isso que eu não sabia quais eram as minhas expectativas pra esse filme. Gostei bastante do modo como ele dirige os diálogos e as abordagens das cenas; a sutileza da direção dele foi bem positiva pra mim, mas não tive o mesmo fascínio que já vi muitos terem. Os cenários são realmente bons e a condução da trama também é boa, mas nada mais do que isso na minha opinião. O que mais me chamou a atenção foi a falta de balanço da direção de arte; não sou muito eficiente nos comentários sobre a direção porque não entendo muito além do óbvio, mas quanto a direção artística sou um pouco mais implicante, e Meia-Noite em Paris me deu abertura pra comentar mais a fundo sobre isso. Tons amarelo-alaranjados permeiam o filme todo, e, não sei se por implicância ou costume com outros estilos de fotografia, mas isso me incomodou visualmente. Não é nada exagerado, claro, mas mesmo assim me pareceu sempre ter aquela retícula colorida específica ao longo de todo o filme, deixando o verdadeiro clima daquele tempo afetado pelo efeito visual.
                      Pretendo ver outras obras de Woody Allen pra saber se foi um caso específico ou algo que ele mantém em toda a sua filmografia, mas acho que pode-se esperar filmes de grande qualidade dele (pelo visto haverá uma espécie de sequência de filmes agora: um se passou em Paris, o próximo seria em Londres e o terceiro em Roma). 

R. Lorenzi

domingo, 31 de julho de 2011

Beleza e Disciplina

Há alguns anos atrás quando assisti ao filme Memórias de uma Gueixa mal sabia eu que estaria encontrando um dos objetos de fascínio que jamais havia pensado em encontrar. Foi a partir desse momento que comecei a enxergar os filmes de outra maneira, sabendo apreciar o lado mais técnico-artístico das produções, pois conceitos como Fotografia e Direção de Arte eram difíceis de serem compreendidos por um leigo como eu no assunto. O filme foi o começo, e, agora, depois de eu ter lido o livro, posso afirmar que há muito mais na beleza oriental do que os olhos ocidentais são capazes de enxergar.

O filme contava uma história dramática que se passava no período da segunda grande guerra que o mundo viveu, mas até aí nada demais, pois histórias assim são produzidas a todo momento. O que mais me encantou nessa produção em especial foi o cuidado com que a arte da produção foi feita, cada detalhe foi levado em consideração, construindo, por fim, um cenário perfeito para um enredo que busca no suporte visual o meio perfeito para mostrar muito mais do que somente diálogos seriam capazes de transmitir. Não é à toa que o filme foi indicado – e premiado- em todas as categorias relativas à arte do principal prêmio do ramo cinematográfico, o Oscar.

Tomando somente o filme como referência fica difícil perceber as ocidentalizações e transgressões que a história sofreu para que pudesse ser adaptada aos cinemas; já se é feita a comparação com base no filme e no livro que o deu origem, é possível criarmos uma consciência desses traços que tiverem de ser alterados absorvendo as imagens para ilustrar de maneira mais sólida as passagens do texto. Arthur Golden, o autor de Memórias de uma Gueixa, é um grande estudioso da literatura e arte, especialmente da japonesa, e com as colaborações certas ele pôde recriar perfeitamente o contexto no qual a história se passava, mostrando a trajetória da pequena Chiyo e todas as reviravoltas que sua vida impôs.

Quando falo que Golden recriou perfeitamente o cenário me refiro às confirmações que tive em relação aos pré-conceitos que tinha para com as tradições japonesas e o modo como sua sociedade funciona. A rigidez das tradições, o modo de se portar e de se comunicar ajudam a construir a origem da disciplina pela qual esse povo é conhecido, aliando esforço e dedicação ao desejo de conseguir algum objetivo em especial. O autor faz uso até de como as pessoas falavam e escreviam para contar a história, tendo sabido que a narração é feita por uma velha gueixa descrevendo suas memórias desde o momento que foi vendida quando criança; comparações muito incomuns – quando levado em conta o estilo atual de literatura – permeiam toda a obra, obrigando o leitor a entrar naquele mundo de uma maneira ou de outra.

Uma combinação de sonoridade, beleza e cultura japonesa fazem desse filme e desse livro marcos no meu entendimento de cinema e literatura; quem tem gosto por esse tipo de assunto, se interessa por história ou simplesmente quer uma literatura que foge dos padrões que percebi até agora, aconselho Memórias de uma gueixa, que, apesar de ser uma leitura bem densa, faz valer a pena, mergulhando por completo num mundo que não existe mais, onde as gueixas eram quase lendas vivas diante de um caos de proporções mundiais.


R. Lorenzi