terça-feira, 3 de abril de 2012

Jogos Vorazes, o primeiro de uma trilogia que vai longe

    Uma versão macabra de um big brother levado a dimensões surreais. É nessa premissa que se baseia Jogos Vorazes, a grande aposta (e vitória, pode-se dizer) da Lionsgate para a indústria cinematográfica e multimídia nos próximos anos.  Sob direção de Gary Ross e baseado nos livros de Suzanne Collins, esta é mais uma série que vem pra entrar pra história das maiores bilheterias mundiais do cinema. Já no primeiro final de semana, Jogos Vorazes ocupou a 3ª posição de bilheteria de estréia de todos os tempos, só ficando atrás de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II e Batman – O Cavaleiro das Trevas.  
                 Com um elenco contando com vários nomes novos de Hollywood, a primeira história da trilogia de Collins mostra um país depois de uma guerra civil que quase o destruiu. Os 12 distritos de Panem participam de uma espécie de festival de celebração à harmonia instaurada pela Capital. Um casal de jovens com até 18 anos de cada distrito deve participar dos Jogos Vorazes como tributo, mas somente um sai vivo de lá. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, de X-Men – Primeira Classe) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de Ponte para Terabítia) são os tributos da vez que irão à Capital. 
                Treinamento, aparência, patrocínio, e uma multidão sedenta pelo show (situação que faz lembrar os coliseus e de seus espetáculos de horror com lutas entre gladiadores na Roma Antiga) dão o toque de realidade exagerada que a história pede. Cada participante tem suas habilidades específicas, mas perante concorrentes que foram treinados a vida toda para estar ali, a dificuldade parece só aumentar. Mudanças de regra durante o jogo, manipulações físicas do espaço e condições extremas para sobrevivência são só alguns fatores que dão intensidade à narrativa. Diálogos sendo mais significativos para o show do que para o espectador do filme e riqueza de imagens em detalhe para ilustrar a sensação de quem está no Jogo foram métodos muito bem utilizados pelo diretor, conseguindo fazer até mesmo quem não leu os livros se envolver com a história.
                Apesar da necessidade de muita ação para contar como são eliminados um a um os concorrentes, a câmera em movimento em excesso e fora de foco irrita os olhos e pode chegar a ser desagradável. A direção de arte acertou em manter o mais verídico possível o visual já que o terreno era campo e floresta, mas essa mesma sobriedade apurada demais tira um pouco da tensão que tons escuros poderiam proporcionar.  A produção dos efeitos futurísticos não fugiu ao esperado, apesar da caracterização trazer ineditismo se tratando dos trajes urbanos exagerados em cores e formatos – quase que uma sátira aos cosmopolitas do futuro.
                Com uma trilha sonora muito bem adequada, sem ruídos demais, nem previsível no final das contas, Jogos Vorazes agrada pelas atuações dos jovens e repercute em reflexões sobre temáticas midiáticas e sociais quando levado a sério. Instigante e até angustiante em alguns momentos, a narrativa provoca choque, surpresa e faz com que não saibamos pra quem torcer afinal. São jovens lutando pela própria vida, representando a terra de onde vieram e que não tem (quase) nada além de si mesmos como proteção. Vencer pelo cansaço ou pela desistência não está no vocabulário de quem assiste ao programa, eles querem o show, e é só assim que os tributos poderão sobreviver.