domingo, 3 de junho de 2012

Entrando pras estatísticas, mais uma vez..


Pra quem não sabe, ontem por volta das 11 da noite eu fui atacado por dois caras com uma faca. A minha intenção era ir pra casa de uma amiga e, enquanto esperava um ônibus lá pelas 22:30 na avenida salgado filho, dois homens se aproximaram e aquilo me pareceu uma abordagem de assalto. Corri e fui pra outro lugar tentar pegar o C4 (balada segura). Ele atrasou e resolvi pegar qualquer um que me deixasse pelo menos próximo de onde eu queria. Na pressa e ansiedade por causa do acontecido meia hora antes, peguei o ônibus errado. Fui me dar conta disso pouco antes de ele entrar no viaduto perto da rodoviária, então resolvi sair ali mesmo. Com medo de caminhar pela Julio de Castilhos até o mercado publico pra esperar o C4 novamente, resolvi atalhar e a intenção era andar até a Alberto bins pra pegar um taxi. Caminhando rapidamente na rua paralela lateral ao viaduto vi que tava tudo deserto. Quando me dei por conta um cara tinha pulado nas minhas costas com uma faca de serra dessas de cozinha na mão do braço que estava no meu pescoço. Os dois caíram no chão e enquanto eu tentava me desvencilhar dele, gritando e me debatendo um outro dava chutes. A faca tinha caído das mãos do cara e não sei como eu consegui me livrar dele e correr. Foi surreal. Bem naquelas que a gente pensa que nunca vai acontecer nada parecido conosco. A moral é que eu dei muita sorte. Além de arranhões e machucados nos joelhos, cotovelo e costela, nada mais aconteceu. Eu me arrisquei demais e só comprovei que as estatísticas não estão tão erradas assim. Mas a brutalidade assusta. O medo assusta. A sensação que eu tive na hora foi de desespero. Eles estavam em dois e eram capazes de me espancar o quanto quisessem. Não adianta gritar. Ninguém tem coragem de ajudar numa situação dessas. Repito, eu dei sorte. O que me espanta é pensar que qualquer pessoa um dia pode se perder, pegar ônibus errado, andar por ruas desertas/desconhecidas e acabar sendo atacado dessa maneira, ficando à margem da própria sorte pra sair dali. Não sei se o motivo era assalto ou qualquer outra coisa, porque não tinha ninguém por perto, então eles não iam precisar usar força pra levar tudo que eu tinha.

Ainda ontem, depois disso tudo eu sai com meus amigos porque não tinha muito que fazer. Não percebi a realidade toda da situação e lembrava de pouco daqueles momentos. A distração parecia uma ideia boa e funcionou bem. Hoje as dores dos chutes e da batida na calçada apareceram e aí que me dei conta da gravidade do que aconteceu. Sempre tentei ser mente aberta sobre andar a noite sem medo e tudo mais, mas em pouco mais de 3 meses foram 3 episódios desse tipo comigo, e nesse a violência foi gratuita. Pelo visto agora ta na hora de encarar essa realidade de porto alegre com outros olhos.  

A minha intenção não é fazer drama nem nada disso sobre essa situação, só ach que as pessoas precisam saber que além das notícias esse tipo de coisa acontece perto ou com nós mesmo. Não adianta ficar pensando no que poderia ter acontecido se eu não tivesse conseguido fugir ou reagir daquele jeito, a realidade continua e ninguém tá isento desse tipo de violência no final das contas. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Jogos Vorazes, o primeiro de uma trilogia que vai longe

    Uma versão macabra de um big brother levado a dimensões surreais. É nessa premissa que se baseia Jogos Vorazes, a grande aposta (e vitória, pode-se dizer) da Lionsgate para a indústria cinematográfica e multimídia nos próximos anos.  Sob direção de Gary Ross e baseado nos livros de Suzanne Collins, esta é mais uma série que vem pra entrar pra história das maiores bilheterias mundiais do cinema. Já no primeiro final de semana, Jogos Vorazes ocupou a 3ª posição de bilheteria de estréia de todos os tempos, só ficando atrás de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II e Batman – O Cavaleiro das Trevas.  
                 Com um elenco contando com vários nomes novos de Hollywood, a primeira história da trilogia de Collins mostra um país depois de uma guerra civil que quase o destruiu. Os 12 distritos de Panem participam de uma espécie de festival de celebração à harmonia instaurada pela Capital. Um casal de jovens com até 18 anos de cada distrito deve participar dos Jogos Vorazes como tributo, mas somente um sai vivo de lá. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, de X-Men – Primeira Classe) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de Ponte para Terabítia) são os tributos da vez que irão à Capital. 
                Treinamento, aparência, patrocínio, e uma multidão sedenta pelo show (situação que faz lembrar os coliseus e de seus espetáculos de horror com lutas entre gladiadores na Roma Antiga) dão o toque de realidade exagerada que a história pede. Cada participante tem suas habilidades específicas, mas perante concorrentes que foram treinados a vida toda para estar ali, a dificuldade parece só aumentar. Mudanças de regra durante o jogo, manipulações físicas do espaço e condições extremas para sobrevivência são só alguns fatores que dão intensidade à narrativa. Diálogos sendo mais significativos para o show do que para o espectador do filme e riqueza de imagens em detalhe para ilustrar a sensação de quem está no Jogo foram métodos muito bem utilizados pelo diretor, conseguindo fazer até mesmo quem não leu os livros se envolver com a história.
                Apesar da necessidade de muita ação para contar como são eliminados um a um os concorrentes, a câmera em movimento em excesso e fora de foco irrita os olhos e pode chegar a ser desagradável. A direção de arte acertou em manter o mais verídico possível o visual já que o terreno era campo e floresta, mas essa mesma sobriedade apurada demais tira um pouco da tensão que tons escuros poderiam proporcionar.  A produção dos efeitos futurísticos não fugiu ao esperado, apesar da caracterização trazer ineditismo se tratando dos trajes urbanos exagerados em cores e formatos – quase que uma sátira aos cosmopolitas do futuro.
                Com uma trilha sonora muito bem adequada, sem ruídos demais, nem previsível no final das contas, Jogos Vorazes agrada pelas atuações dos jovens e repercute em reflexões sobre temáticas midiáticas e sociais quando levado a sério. Instigante e até angustiante em alguns momentos, a narrativa provoca choque, surpresa e faz com que não saibamos pra quem torcer afinal. São jovens lutando pela própria vida, representando a terra de onde vieram e que não tem (quase) nada além de si mesmos como proteção. Vencer pelo cansaço ou pela desistência não está no vocabulário de quem assiste ao programa, eles querem o show, e é só assim que os tributos poderão sobreviver. 

domingo, 4 de março de 2012

Dance, dance... otherwise we are lost


Entre as indicações para melhor documentário do Oscar 2012 estava Pina, um filme que mostra a obra e o legado de Pina Bausch como bailarina e coreógrafa de dança contemporânea. Apesar de não ter levado o prêmio da Academia, a qualidade do documentário foi muito bem reconhecida tendo em vista todos os outros prêmios a que foi indicado.
Composto basicamente por depoimentos curtos sobre o contato que os bailarinos tiveram com Pina e fragmentos das peças que ela montou ao longo da carreira, o filme pode ser bem cansativo pra quem não tem tanto interesse ou conhecimento em dança contemporânea. Falo isso porque as coreografias e a montagem das peças podem parecer um tanto quanto sem sentido e entediantes aos olhos do espectador se não encaradas com mente aberta.
Com uma peça inicial brilhante e extremamente bem feita, a impressão é de que há muito mais sobre Pina Bausch a se explorar do que o documentário consegue mostrar. Bailarinos e músicas de todo o mundo compõem sua obra, intensificando a sensação de identidade que se pode desenvolver ao observar os movimentos, as combinações e a interação humano-objeto de suas peças. Visualidade e expressão definem o trabalho de mais um talento da dança que virou lenda.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Who let the dogs out?!


                Depois de Marley & Eu não é incomum achar livros sobre histórias com animais de estimação. John Grogan acertou quando decidiu contar a história de um cão que entra na família pra mudar a sua história, comovendo milhões ao relatar os episódios do labrador. Não é difícil se identificar com histórias que envolvam pets, afinal, querendo ou não, praticamente todo mundo já teve contato com algum. Assim nasce mais um exemplar na literatura temática envolvendo famílias e bichos: Huck escrito pela jornalista do Times Janet Elder, mistura aventura, drama e solidariedade, mostrando que a presença de um cão vai além de dar comida, água e levar pra passear.
                A obra é baseada na história de Janet, Rich (seu marido) e Michael (seu filho). O garoto desde pequeno demonstra muito interesse por animais, em especial cachorros, mas como a família vive em NY, os pais arrumam toda sorte de desculpas para convencerem-no, e também a si mesmos, da impossibilidade de criar um cão dentro daquela rotina. A história ganha força quando Janet passa por um câncer e sua visão sobre muita coisa muda. A luta contra a doença parece sensibilizar a autora e a ideia do cachorro não parece mais tão absurda.
                Algum tempo depois, Huck, um poodle-toy abricó, chega à Nova York e é mais bem recebido do que se esperava. Logo, Michael e seus pais não conseguem mais se imaginar sem o mascote. E assim continua até o momento em que a família se vê obrigada a se separar do cãozinho para poder viajar e aproveitar um período de férias. Uma mudança brusca nos planos da família já quando estão longe de Huck faz a narrativa ganhar força e desenvolve a verdadeira trama da história. Cidadãos solidários, esforços desmedidos e alguma tensão compõem o cenário do episódio-chave do livro. O modo como o tempo é dilatado na percepção do leitor é um fator que chama a atenção, pois na teoria pouca coisa acontece naquelas tantas horas, mas ao mesmo tempo, o modo como a autora relata os acontecimentos faz com que pareça uma maratona.
                Apesar dos detalhes em excesso em alguns momentos da obra, Huck tem um ritmo bom. A maneira como as ações vão acontecendo e interligando-se faz com que a história tenha a coerência necessária, ainda que sejamos constantemente confundidos pelo grande número de personagens que vão atravessando a história. Quem gosta de animais e se interessa por livros dessa temática, vale à pena a leitura; para os outros, a probabilidade de permanecerem presos à história cai bastante. Fiel e comprometido, o livro de Elder comove pela sensibilidade e tem algo de surpreendente no final das contas, valendo o tempo da leitura pra lembrar que ainda existe resquícios de bondade por aí. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O amor à sombra da morte


Uma garota com um tumor na cabeça que é privada de uma vida normal. Um cara com uma história complicada que costuma ir a funerais de desconhecidos. É assim que começa a história de Annabel e Enoch, unidos pela perda de alguém que ela conhecia por causa da doença e (mais) uma ida ao funeral de alguém que ele não sabia que era. Gus van Sant transforma uma história inicialmente previsível em uma trama envolvente - e por vezes intensa - de amor e perda em “Inquietos” (Restless).
Uma história não muito difícil de ser premeditada geralmente cai nos clichês e não surpreende. Em Inquietos talvez até não haja uma grande virada inesperada ou que mude o curso óbvio da história, mas a condução pelo diretor e as intervenções que os dramas secundários (história dele, dos pais, de um fantasma) enriquecem o enredo e trazem consistência à obra. Apesar da limitação imposta pelo câncer de Annie, o foco não é na batalha contra a doença, mas sim no aproveito de tempo que ainda lhe resta.
Visualmente o filme é extremamente agradável. A direção de arte é bem sucedida quanto à sutileza do ambiente em que a história se passa; uma fotografia leve e marcante em alguns contrastes dá o tom que o romance pede. O ritmo inteligente, sem pressa nem demora em demasia, propõe a velocidade ideal pra história tomar curso.
A estranheza e a atitude dos personagens é o que diferencia essa história das outras. Os interesses, as divergências e a consciência perante tudo que é inevitável são os elementos que cativam o espectador. Envolvente, sutil e emocional define “Inquietos”, um filme que diz mais sobre a capacidade de amar do que qualquer outro clichê pertinente.