segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Who let the dogs out?!


                Depois de Marley & Eu não é incomum achar livros sobre histórias com animais de estimação. John Grogan acertou quando decidiu contar a história de um cão que entra na família pra mudar a sua história, comovendo milhões ao relatar os episódios do labrador. Não é difícil se identificar com histórias que envolvam pets, afinal, querendo ou não, praticamente todo mundo já teve contato com algum. Assim nasce mais um exemplar na literatura temática envolvendo famílias e bichos: Huck escrito pela jornalista do Times Janet Elder, mistura aventura, drama e solidariedade, mostrando que a presença de um cão vai além de dar comida, água e levar pra passear.
                A obra é baseada na história de Janet, Rich (seu marido) e Michael (seu filho). O garoto desde pequeno demonstra muito interesse por animais, em especial cachorros, mas como a família vive em NY, os pais arrumam toda sorte de desculpas para convencerem-no, e também a si mesmos, da impossibilidade de criar um cão dentro daquela rotina. A história ganha força quando Janet passa por um câncer e sua visão sobre muita coisa muda. A luta contra a doença parece sensibilizar a autora e a ideia do cachorro não parece mais tão absurda.
                Algum tempo depois, Huck, um poodle-toy abricó, chega à Nova York e é mais bem recebido do que se esperava. Logo, Michael e seus pais não conseguem mais se imaginar sem o mascote. E assim continua até o momento em que a família se vê obrigada a se separar do cãozinho para poder viajar e aproveitar um período de férias. Uma mudança brusca nos planos da família já quando estão longe de Huck faz a narrativa ganhar força e desenvolve a verdadeira trama da história. Cidadãos solidários, esforços desmedidos e alguma tensão compõem o cenário do episódio-chave do livro. O modo como o tempo é dilatado na percepção do leitor é um fator que chama a atenção, pois na teoria pouca coisa acontece naquelas tantas horas, mas ao mesmo tempo, o modo como a autora relata os acontecimentos faz com que pareça uma maratona.
                Apesar dos detalhes em excesso em alguns momentos da obra, Huck tem um ritmo bom. A maneira como as ações vão acontecendo e interligando-se faz com que a história tenha a coerência necessária, ainda que sejamos constantemente confundidos pelo grande número de personagens que vão atravessando a história. Quem gosta de animais e se interessa por livros dessa temática, vale à pena a leitura; para os outros, a probabilidade de permanecerem presos à história cai bastante. Fiel e comprometido, o livro de Elder comove pela sensibilidade e tem algo de surpreendente no final das contas, valendo o tempo da leitura pra lembrar que ainda existe resquícios de bondade por aí. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O amor à sombra da morte


Uma garota com um tumor na cabeça que é privada de uma vida normal. Um cara com uma história complicada que costuma ir a funerais de desconhecidos. É assim que começa a história de Annabel e Enoch, unidos pela perda de alguém que ela conhecia por causa da doença e (mais) uma ida ao funeral de alguém que ele não sabia que era. Gus van Sant transforma uma história inicialmente previsível em uma trama envolvente - e por vezes intensa - de amor e perda em “Inquietos” (Restless).
Uma história não muito difícil de ser premeditada geralmente cai nos clichês e não surpreende. Em Inquietos talvez até não haja uma grande virada inesperada ou que mude o curso óbvio da história, mas a condução pelo diretor e as intervenções que os dramas secundários (história dele, dos pais, de um fantasma) enriquecem o enredo e trazem consistência à obra. Apesar da limitação imposta pelo câncer de Annie, o foco não é na batalha contra a doença, mas sim no aproveito de tempo que ainda lhe resta.
Visualmente o filme é extremamente agradável. A direção de arte é bem sucedida quanto à sutileza do ambiente em que a história se passa; uma fotografia leve e marcante em alguns contrastes dá o tom que o romance pede. O ritmo inteligente, sem pressa nem demora em demasia, propõe a velocidade ideal pra história tomar curso.
A estranheza e a atitude dos personagens é o que diferencia essa história das outras. Os interesses, as divergências e a consciência perante tudo que é inevitável são os elementos que cativam o espectador. Envolvente, sutil e emocional define “Inquietos”, um filme que diz mais sobre a capacidade de amar do que qualquer outro clichê pertinente.